"Não devemos permitir que uma só criança fique em sua situação atual sem desenvolvê-la até onde seu funcionamento nos permite descobrir que é capaz de chegar. Os cromossomos não têm a última palavra". (Reuven Feuerstein)

sábado, 7 de novembro de 2015

“Escola demais faz mal às crianças”

Meu filho tem 4 anos. E nas “rodinhas” de conversa na porta da escola, não se pergunta outra coisa: “Pra qual escola ele vai?” No começo eu não entendia a questão. Eu e meu marido já escolhemos a escola do Samuel – estávamos na porta dela, inclusive – e não passava pela nossa cabeça mudá-lo de instituição. Há jabuticabeiras, animais, aula de música, parques. E ele é muito feliz lá, como já nos disse dezenas de vezes. A escolha não foi por impulso. Antes de efetivar a matrícula conversamos com a diretora sobre alimentação, método de ensino, conflitos e inclusão (ver com meus próprios olhos crianças especiais por lá foi decisivo porque eu sempre quis que meu filho fosse acima de tudo uma pessoa tolerante). E por estar assim tão segura das minhas/nossas escolhas, decidi entender porque essas mães e esses pais estavam tão inquietos.
Uma delas falou sobre a preocupação com o vestibular e, como nesta escola não há ensino médio, não conseguiam saber se a escola era “forte” ou “fraca”. Outros se preocupam com as habilidades futuras das crianças em línguas estrangeiras. Um pai me lembrou que “inglês todo mundo já fala” e contou que foi visitar uma escola que ensina alemão para os pequenos.  Muitos questionam o sistema de ensino, construtivista. “É bom apenas quando eles são menores, depois eles ficam indomáveis, sem regras”, ouvi de uma mãe.
Foi por isso que decidi entrevistar o psicólogo e psicanalista Eduardo Sá, professor da Universidade de Coimbra, Portugal. Fazendo minha ronda diária em portais jornalísticos do mundo, vi que ele estava lançando o livro: “Hoje não vou à escola – Por que os bons alunos não tiram sempre boas notas?”, que já está em negociação para ser publicado também no Brasil. Sá lança a pergunta no texto de divulgação: “Por que é que a escola dá tanto às crianças, mas não necessariamente o que mais precisam?”. Ele defende com unhas e dentes uma escola que dê importância à educação musical e à educação física na mesma medida em que valoriza o ensino da matemática e do português. É contra a lição de casa, a favor do brincar e de passar mais tempo com a família. Eduardo Sá afirma que saber acolher o fracasso dos nossos filhos é de vital importância e decreta: “Escola demais faz mal às crianças”.
Rita: No Brasil, muitos pais colocam os filhos ainda pequenos em escolas bilíngues, que ensinam português e inglês, preocupados com o futuro profissional deles. Algumas dessas escolas são em período integral e, por isso, as crianças ficam mais tempo fora de casa. Como o senhor avalia essa escolha?
: Escola demais faz mal às crianças. A escola é fantástica e indispensável, claro, mas há uma tendência incompreensível para que, também em Portugal, as crianças passem tempo demais na escola. Mais escola (ou, se preferir, mais tempo de escola) não significa melhor escola. Se quisermos ser didáticos para os pais, devemos dizer que a família é mais importante que a escola e que brincar é tão essencial como aprender. E mais: devemos dizer que a hierarquia das prioridades para as crianças deveria ser em primeiro lugar a família, em segundo a “escola da vida”,em terceiro o brincar e, finalmente, a escola propriamente dita. Ao imaginarmos a vida diária duma criança, não devíamos nunca deixar de levar em consideração que estes compromissos com o crescimento precisam de tempo para que, em conjunto, ajudem as crianças a namorar com a vida e, ao mesmo tempo, para que elas aprendam a crescer e aprendam a pensar.

Seja como for, eu entendo que as escolas bilíngues seduzam os pais. E têm benefícios pela vida fora. Seja como for, parece-me que os pais ganham se entenderem que em primeiro lugar as crianças devem brincar com o corpo e ter educação física, porque elas aprendem de dentro para fora do corpo e aprendem ligando os ritmos do corpo às regras e às rotinas. Crianças mais amigas do corpo são crianças que se expressam melhor, de modo mais expressivo e mais proativo. E que, depois, devem ter educação musical. Mais educação musical representa mais educação para a sensibilidade e mais “ouvido” com que se vai da verdadeira Torre de Babel, que é a música, para a palavra e dela para os gestos. Resumindo: mais corpo, mais música e mais língua materna. Até porque as crianças se apaixonam em português, se zangam em português, sonham em português. Sendo assim não acho que se ganhe se não investirmos primeiro no português e, só depois dos 8 anos, em um outro idioma. Até porque quando olhamos para o bilinguismo dos adolescentes não me parece que ele seja só útil. Afinal temos cada vez mais adolescentes iletrados: que sentem, que discorrem mas que, ao não conseguirem traduzir a vida mental em língua materna, transformam em angústia aquilo que seria traduzido em palavras e com isso adoecem. Por outras palavras: menos cuidados com a língua materna significa mais doença mental.
Rita: Há também uma grande preocupação em colocar os filhos ainda pequenos em escolas bem colocadas no exame nacional do ensino médio, ENEM, em uma aposta de que assim os filhos terão mais chances de entrar nas melhores universidades. É uma preocupação sadia, na visão do senhor?
: Eu entendo os cuidados dos pais. E interpreto-os como um sinal de bondade. No entanto, nem sempre um modelo educativo sedutor ou um espaço escolar exemplar são tão indispensáveis para o sucesso escolar como o é um professor. Um professor especial é uma estrela que guia. Na escolha de uma escola deve estar, em primeiro lugar, a sabedoria e a qualidade humana de um professor. É claro que quando se conjugam um professor mágico, um espaço escolar bonito e aconchegante e um modelo educativo “de rosto humano” estão criadas as condições para que as crianças fujam para a escola (em vez de fugirem dela) e para que o sucesso educativo se torne claro.
Esta tendência para escolas mais exclusivas, com menos diversidade social e econômica, mais amigas de tudo o que é uniforme, e com muito menos crianças é, também, comum em Portugal. E eu acho ruim! Porque a vida é inclusiva, por excelência. Porque todas as crianças (todas elas!!) têm sempre, pelo menos, uma necessidade educativa especial. E porque os rankings das escolas são, muitas vezes, mentirosos: comparam escolas públicas e escolas privadas, com condições muito diferentes e escolas das grandes cidades com escolas do interior. Sendo assim, pais empenhados com a educação dos filhos são pais amigos do futuro. Tomara que eles aceitem que uma escola não serve para formar jovens tecnocratas mas pessoas mais educadas e mais amigas do conhecimento e do futuro.
Rita:Existe a escola ideal? Se sim, como ela seria?
: Não existe, nem precisaria existir. Seja como for, uma escola amiga do conhecimento e das crianças será:
.Uma escola onde as aulas serão, sobretudo, de manhã (porque somos animais cujos ritmos biológicos nos tornam mais perspicazes e mais inteligentes de manhã)
.Uma escola onde as aulas terão entre 45 e 60 minutos e, em vez de serem expositivas devem ser, sobretudo, participadas
.Uma escola onde os recreios tenham entre 20 e 25 minutos, e sejam cobertos e adequados (porque brincar não é uma atividade de primavera/verão mas de todo o ano) e onde se possa correr e brincar.
.Uma escola onde todas as disciplinas tenham o mesmo valor e onde não haja disciplinas de primeira (como a matemática ou o português) e disciplinas de segunda (como a educação física ou a educação musical)
.Uma escola onde não haja turmas de bons alunos e turmas de alunos banais
.Uma escola onde nunca se sossegue até se descobrir o que é que cada aluno tem de singular (e que represente uma mais valia para toda a escola) e qual é a sua necessidade educativa especial
.Uma escola que recomende que se brinque todos os dias, porque brincar é um patrimônio imaterial da Humanidade e quem não brinca não pensa nem aprende
.Uma escola com mais criatividade e menos repetição
.Uma escola menos amiga dos trabalhos de casa
.Uma escola onde haja mais cooperação entre professores e família
.Uma escola que acarinhe a autonomia e a pesquisa das crianças e onde não se incentivem as explicações ou aulas que se multipliquem
.Uma escola com mais direitos à dúvida e aos erros
.Uma escola onde os alunos faladores tenham um quadro de honra, porque eles são um patrimônio fundamental da escola pela forma como interpelam e dão à escola a oportunidade de se repensar
Rita: As crianças estão indo cada vez mais cedo à escola por diversos motivos, entre eles, porque o senso comum tem dito que precisamos “estimular” nossos filhos o quanto antes. As crianças precisam mesmo da escola assim tão pequenos? A partir de qual idade ela se torna necessária?
:As crianças ganham se frequentarem a educação infantil a partir dos 3 anos. E o ensino básico aos 6. Desde que o educação infantil não seja uma pré-escola, onde as crianças sejam empurradas para atividades escolares como aprender a ler ou a escrever. Estimular as crianças cada vez mais cedo para atividades escolares não as torna nem mais inteligentes nem mais amigas do conhecimento. Há então, para todos nós, um compromisso entre tudo aquilo que a escola pode dar e o tempo indispensável que leva sempre a transformar uma criança saudável num adulto com futuro. Mas, atenção: ninguém estimula um filho se não o souber sentir e se não o souber escutar! Se aos 3 anos a escola complementar a família estamos a dar uma oportunidade mais plural de crescimento a uma criança.
Rita: Tirar boas notas é importante?
:Claro que sim. Mas eu receio que os pais só se preocupem com as boas notas nas provas. E eu acho que eles têm, também, de exigir boas notas nos recreios, boas notas como netos e como filhos. Boas notas em relação  seu espírito solidário, e boas notas nos compromissos cívicos. Ter boas notas é importante sim, porque as mesmas competências estimuladas por pessoas diferentes, a propósito de diversas disciplinas, no contexto de grupos distintos, traz mais e melhores performances às crianças, sendo essa versatilidade aquilo com que mais elas se habilitam para o futuro. Assim os pais não se esqueçam que, regra geral, as crianças estão pouco habilitadas para o insucesso e que isso funciona como uma espécie de imunodeficiência adquirida.
Rita: Como preparar os filhos para o fracasso e qual a importância dessa preparação para o futuro deles?
: Os fracassos nunca se preparam de véspera, Rita. É um pouco assim que tudo se passa na nossa vida. O grande desafio de um insucesso – nas crianças como em nós – passa por sabermos se as pessoas que são mais importantes na nossa vida são capazes de conviverem com a nossa tristeza. Na verdade, elas estão sempre lá, ao nosso dispor, mas nem sempre aceitam e acolhem a nossa tristeza. Muitos pais afligem-se com a tristeza dos filhos como se lhes dissessem: se você está triste, você me põe triste… E, quando é assim, uma criança dói-se por estar triste e assusta-se ao sentir que a sua tristeza será estranha ou mais ou menos misteriosa para os seus pais. Isto é: a tristeza é inevitável quando vivemos um fracasso, mas quando as pessoas que nos amam se assustam com a nossa dor, perdura a tristeza que nos assalta e é acrescida pelo desamparo que a falta de acolhimento que ela desencadeou terá merecido. Ora, é muito importante que os pais sintam os filhos. Mas, mais precioso ainda, é que eles percebam que a tristeza ajuda a esclarecer se as pessoas que nos amam nos sabem amar. Sendo assim, a tristeza é o melhor antidepressivo do mundo! Porque quanto podemos estar tristes e mais sentimos que as nossas dores nos dão mais e melhores pais, mais nos tornamos audazes e guerreiros. Tenho medo, portanto, que os pais tenham construído um ideal de um crescimento antidepressivo para os seus filhos e seja isso que mais os deprimem. Ao contrário daquilo que, seguramente, eles desejam. Ao contrário dos perigos que eles vêem ou imaginam à volta da vida das crianças . E ao contrário daquilo que a sua bondade deixaria supor. Sendo assim, pais bondosos não exageram na prevenção da dor. Deixam que o improviso da própria vida faça o seu trabalho porque eles sabem que, no caso de um filho se magoar, eles são quem mais os tornam corajosos, mais audaciosos e mais tenazes. Já, ao contrário, crianças que fogem da dor são crianças que se tornam de “porcelana”: frágeis e fóbicas, portanto. Porque a melhor forma de ficar preso a uma dor é fugir dela.
Rita: O que o senhor acha da lição de casa? Ela é necessária? A partir de qual idade?
: Acho ruim. Porque a multiplicação da lição de casa talvez seja a prova do modo com a sala de aula está doente, a ponto de não conseguir ensinar crianças diferentes de forma razoavelmente idêntica e unicamente no período escolar. E acho ruim, ainda, porque mais lições de casa significam menos tempo para a família, menos tempo para viver e menos tempo para brincar. E, se for assim, mais lições de casa roubam a infância das crianças. Tudo o que a escola não pode, jamais, patrocinar.
Rita: Quando o pai deve apoiar a escola e quando deve questionar suas atitudes? Aqui no Brasil temos um “fenômeno” de enfraquecimento da autoridade de algumas escolas particulares que muitas vezes não conseguem punir o aluno por serem pressionadas pelos pais.
: Os pais são a verdadeira “entidade reguladora” da escola e a escola é a primeira “comissão de proteção de crianças e de jovens em perigo”. Por outras palavras, a escola deve educar os pais, os pais devem educar os professores e as crianças devem educá-los a ambos. Mas isso não pode servir para alimentar um sistema onde o dinheiro “compra” a justiça escolar. Porque se se limita a autoridade de um professor (que é sempre um exercício de sabedoria, de justiça e de bondade) está-se a utilizar o dinheiro para ensinar às crianças  que tudo se compra. E, se for assim, os pais estão a pôr as crianças  em perigo. Pais como estes, independentemente das escolas que os seus filhos frequentem ou do poder que imaginem que tenham, não podem ter os seus filhos a sua guarda! São pais que educam com maus exemplos. São, portanto, perigosos.
Rita: O que o pai e a mãe devem exigir do filho?
:Que seja honesto, que seja humilde, que escute quem lhe mereça admiração, que jamais esqueça que quem foge de errar vive preso no erro e que perceba que ao orgulho se chega quando vencemos, com a ajuda dos outros, as nossas dificuldades (ao contrário da vaidade que representa a veleidade de os vencermos a eles).
Rita: No livro, o senhor afirma que os bons filhos não são os que tiram melhores notas. Por quê? Quais são os bons filhos?
:Bons filhos são aqueles que percebem que errar é aprender. São aqueles que, mesmo depois de entrarem na escola, continuam perguntando “por quê?”. E que percebem que os pais não são necessários para o crescimento dos filhos, mas são indispensáveis. É por isso que eu acho que os bons filhos não são aqueles que não dão problemas aos pais mas, sobretudo, aqueles que lhes põem problemas. Porque é à custa desses desafios que os pais crescem e se tornam melhores pais.
Rita: Há uma “epidemia” de diagnósticos de crianças hiperativas e/ou com déficit de atenção. A muitas dessas crianças são prescritos remédios. Existe tanta criança com problema assim?
: Não! A forma como se medica as crianças , com mão leve e sem critério e com substâncias da família das anfetaminas é grave. Porque as pessoas parecem esquecer-se que as crianças se têm mais tempo de escola e menos brincam mais distraídas se tornam. Quanto mais sedentárias e mais “info-engolidas” mais distraídas se tornam. Quanto menos convivem e menos conversam mais distraídas se tornam. Quanto mais vivem num stress crônico, com agendas de compromissos absurdas, mais distraídas se tornam. Quanto menos regras e menos rotinas têm, mais os seus ritmos de todos os dias são confusos e mais distraídas se tornam. Na verdade, se há quem tenha déficits de atenção são, sobretudo, os ministérios da educação e as associações de pais. Porque parecem ignorar os motivos – que são da responsabilidade dos mais crescidos – pelos quais as crianças parecem distraídas. E, depois, dão-lhes uma “poção mágica” que as tornam mais entorpecidas de segunda à sexta, no período escolar, como se isso fosse um aditivo inofensivo e sem consequências a médio e a longo prazo. Ora, na verdade, não existe tanta criança com problema. Existem , isso sim, muitos pais  com problemas, que vivem  de forma preguiçosa as dificuldades das crianças, como se elas não aprendessem, sobretudo, com os exemplos dos pais.
Rita: A paternidade e maternidade melhoram com a experiência?
: Sem dúvida que sim. Aprendemos a ser pais à medida que somos pais. Aprendemos a ser mais compreensivos e perdemos os pré-conceitos e os pré-juízos. Aprendemos a colocarmo-nos  no lugar dos outros e a senti-los em nós. Aprendemos a esperar e a ter pressa de futuro.
Fonte: http://vida-estilo.estadao.com.br/blogs/ser-mae/escola-demais-faz-mal-as-criancas-garante-psicologo-portugues/

sábado, 20 de junho de 2015

Estudo genético liga inteligência a risco de ter autismo

As mesmas alterações de DNA que tornam uma pessoa propensa a desenvolver autismo –transtorno mental que afeta a sociabilidade e comunicabilidade– estão correlacionadas a uma maior inteligência, sugere um estudo.
Os dados saíram de três pesquisas de saúde pública, uma das quais acompanhou 9.863 pessoas na Escócia. Os dados indicaram que características genéticas de risco para o autismo são benéficas em um contexto mais geral.

Entender como o autismo afeta a inteligência sempre foi difícil porque, apesar de 70% dos pacientes diagnosticados terem habilidades cognitivas deterioradas, um grupo pequeno apresenta inteligência até mesmo maior do que pessoas não autistas.
"Há estudos que mostram um excesso de indivíduos autistas com QI acima de 130 [nível bastante alto], mas a maioria da população autista não tem habilidades cognitivas maiores" explicou à Folha Toni Clarke, cientista da Universidade de Edimburgo que liderou o estudo.
Segundo a pesquisadora, a evolução humana favoreceu a disseminação de genes ligados à inteligência ao longo do tempo, e isso conferiu uma vantagem à média da população. O fato de alguns desses genes estarem ligados ao autismo e não serem eliminados pela evolução seria preço que pagamos como espécie para aumentarmos nossa capacidade cognitiva.
"Achamos que o fator crucial é se você contrai o transtorno ou não", afirma Clarke "Quando você não desenvolve o autismo, talvez essas variantes possam conferir uma pequena vantagem". O trabalho da pesquisadora e de seus colegas foi publicado na revista "Molecular Psychiatry".
VANTAGEM SUTIL
A vantagem cognitiva dos genes ligados ao autismo foi pequena, mas se manteve num limite no qual é difícil explicar que a correlação tenha sido uma coincidência.
Clarke e seus colegas testaram sua hipótese em outro levantamento de saúde pública na Escócia, com 1.522 indivíduos, e em um estudo que acompanha grupos de irmãos gêmeos na Austrália. A correlação se manteve em pé nessas outas populações.
"É uma diferença sutil, mas significativa", afirma o biólogo brasileiro Alysson Muotri, professor da Universidade da Califórnia em San Diego, especialista em biologia molecular do autismo. "Para mim, a correlação faz sentido, porque muitos dos genes relacionados ao autismo estão envolvidos com contatos sinápticos [conexões entre células cerebrais]."
Estudo com imagens de ressonância magnética detecta diferenças em cérebro autista.
As alterações genéticas analisadas no estudo de Clarke saíram do Consórcio de Genética Psiquiátrica, liderado pelos EUA. Os dados são derivados de relação estatística, já que o mecanismo de ação de praticamente todos os genes ainda é um mistério.
Cientistas notaram que as alterações ligadas ao autismo pareciam promover todos os tipos de inteligência. Isso não era esperado, pois muitos autistas com alta pontuação em testes visuais e não verbais não costumam se sair tão bem em testes verbais.
Os testes usados eram todos de raciocínio analítico. "Seria legal se testes mais abstratos fossem incluídos também", diz Muotri. "Medir inteligência é complicado." 
Fonte:  http://www1.folha.uol.com.br/ciencia/2015/03/1608776-estudo-genetico-liga-inteligencia-a-risco-de-contrair-autismo.shtml


quinta-feira, 18 de junho de 2015

Estudo revela em qual idade há risco de ter filhos com autismo


Pais com grandes diferenças de idade e mães adolescentes têm um número surpreendente de filhos com o transtorno do autismo. A revelação é de um estudo divulgado nesta terça (9) pela instituição “Autism Speaks”, a maior multinacional em estudos sobre autismo. 
O autismo é um transtorno que geralmente se manifesta na primeira infância e afeta a interação social, a comunicação e geralmente vem acompanhado de algum grau de deficiência mental. O autismo atinge mais meninos do que meninas, devido à quantidade de mutações genéticas que o cérebro delas pode suportar, de acordo com pesquisas de cientistas suecos e americanos.
O presente estudo da Autism Speaks também confirmou que pessoas mais velhas têm grandes chances de gerarem filhos autistas. A pesquisa foi feita com cerca de 6 milhões de crianças, em cinco países. “Esse estudo é diferente de todos os outros”, declarou o co-autor da pesquisa, Michael Rosanoff. “Fazendo a ligação entre registros de saúde em cinco países, nós criamos o maior banco de dados do mundo na pesquisa de fatores que aumentam o risco de autismo”, completou.
No entanto, Rosanoff alerta que não é preciso alarde: “Apesar de a idade dos pais ser importante, a maioria das crianças nascidas de pais muito novos ou mais velhos, vai se desenvolver normalmente”, adicionou o autor da pesquisa, Sven Sandin.
Apesar de estudos anteriores já terem identificado uma ligação entre idade avançada nos pais, muitos aspectos disso ainda permanecem sem resposta. Um exemplo disso é que alguns estudos revelaram que esse risco aumenta quando os pais são mais velhos, mas não as mães.
Em seu trabalho, pesquisadores buscaram identificar quais fatores contribuiriam mais para a síndrome. “Calculamos qual aspecto era o mais importante. Acabou sendo a idade dos pais, apesar de diferenças grandes entre um e outro também serem significantes”, afirmou.
O autismo ocorre com cerca de 66% das crianças de pais com mais de 50, número que aumenta em 28%, para adolescentes. “Nesse estudo, mostramos pela primeira vez o que é o risco de autismo, ao invés de recorrer aos métodos convencionais”, disseram os pesquisadores.

Fonte: http://www.parana-online.com.br/m/canal/mulher/news/884046/

sábado, 9 de maio de 2015

Feliz Dia Das Mães!!!

video
Deus escolhe as Mães
"Deus pairou sobre a Terra, selecionando o seu instrumento de propagação com um grande carinho e compassivamente, enquanto Ele observava, Ele instruía seus anjos a tomarem nota em um grande livro:
- Para a mãe Sebastiana, um menino e o anjo da guarda Mateus.
- Para a mãe Maria, uma menina e como anjo da guarda Cecília.
- Para a mãe Fátima, gêmeos, e como anjo da guarda, mande Gerard.
Pronunciando um nome, sorri e diz:
- Dê a ela uma criança deficiente.
O anjo cheio de curiosidade pergunta:
- Por que a ela Senhor? Ela é tão alegre...
- Exatamente por isso. Como eu poderia dar uma criança deficiente para uma mãe que não soubesse o valor de um sorriso? Seria cruel.
- Mas será que ela terá paciência?
- Eu não quero que ela tenha paciência porque, com certeza, se afogará no mar da autopiedade e desespero. Logo que o choque e o ressentimento passar, ela saberá como se conduzir.
- Senhor, eu a estava observando hoje, ela tem aquele forte sentimento de independência. Ela terá que ensinar a criança a viver no seu mundo e não vai ser fácil.
- E além do mais, Senhor, eu acho que ela nem acredita na sua existência.
Deus sorri.
- Não tem importância. Eu posso dar um jeito nisso. Ela é perfeita. Ela possui o egoísmo no ponto certo. O anjo engasgou.
- Egoísmo? E isso é, por acaso, uma virtude?
Deus acenou um sim e acrescentou:
- Se ela não conseguir se separar da criança de vez em quando, ela não sobreviverá. Essa é uma das mulheres que eu abençoarei com uma criança menos perfeita. Ela ainda não faz idéia, mas ela será também muito invejada. Sabe, ela nunca irá admitir uma palavra não dita, ela nunca irá considerar um passo adiante uma coisa comum. Quando sua criança disser 'mamãe' pela primeira vez, ela pressentirá que está presenciando um milagre. Quando ela descrever uma árvore ou um pôr do sol para seu filho cego, ela verá como poucos já conseguiram ver a minha obra. Eu a permitirei ver claramente coisas como a ignorância, crueldade, preconceito e a ajudarei a superar tudo. Ela nunca estará sozinha. Eu estarei ao seu lado cada minuto de sua vida, porque ela estará trabalhando junto comigo.
- E quem o senhor está pensando em mandar como anjo da guarda?
Deus sorriu.
Dê a ela um espelho, é o suficiente!"

O meu eterno carinho e respeito à todas essas mães guerreiras, que com seu amor incondicional enfrentam desafios e superações. Feliz Dia das Mães!!!

quarta-feira, 29 de abril de 2015

Instituída a Semana Municipal de Conscientização do Autismo em Itabira/MG


Com muita alegria, posto a lei municipal que institui a Semana de Conscientização do Autismo, no nosso municipio. Mais uma conquista! Agradecemos a todos que se empenharam nesta luta. Juntos somos mais fortes!

quinta-feira, 2 de abril de 2015

"Autismo é complexo e muito mais comum do que se imagina"

SEMANA DE CONSCIENTIZAÇÃO
Rodrigo Andrade

O jovem João Vitor e seu teclado: a música vence as diferenças

Um teclado, um microfone e todas as diferenças se vão. A Câmara de Vereadores se tornou o palco para que o jovem João Vitor Avancini Parrini, 17 anos, mostrasse todo seu talento nessa terça-feira, 31 de março. Com um inglês nada embromador e desenvoltura para ditar o ritmo do instrumento musical, o rapaz arrancou aplausos de todos ao entoar a música Californication, da banda americana Red Hot Chili Peppers.
João Vitor é autista e é acompanhado pela Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (Apae) desde 2009. Na escola, despertou o dom para a música e fez dele um instrumento de socialização. Com seu teclado, prova que as diferenças nada mais são do que um obstáculo que pode ser superado quando o preconceito é deixado de lado.
O autismo esteve em discussão na Câmara durante a reunião ordinária. Os vereadores votaram e aprovaram por unanimidade um projeto de Sueliton Sousa (Pros) que cria a Semana Municipal da Conscientização sobre o Autismo. Na oportunidade, a psicóloga da Apae France Jane Elias Leandro usou a tribuna para falar sobre esse tipo de distúrbio.
O autismo é um problema neurológico caracterizado pelo comprometimento da interação social. Segundo a psicóloga, é “complexo e muito mais comum do que se imagina”. Dados apresentados por France Jane comprovam a afirmação. Em todo mundo, 70 milhões de pessoas são autistas. No Brasil são 2 milhões. O distúrbio atinge mais os meninos, em uma proporção de quatro homens para cada mulher. Por isso, a cor azul é usada para simbolizar a semana de conscientização.
“Apesar dos avanços, os autistas ainda encontram dificuldades no sistema de ensino. Precisamos aprofundar em mais diagnósticos, mais tratamento, mais respeito e menos preconceito”, afirmou a psicóloga. Em Itabira, 42 autistas são acompanhados pela Apae. Eles recebem aulas especiais e são monitorados por profissionais especificamente preparados.
A representante da Apae citou que o autismo é considerado uma deficiência e cobrou que isso seja levado em conta na hora da discussão do projeto que concederá passe livre aos portadores de deficiência em Itabira. Esse projeto será debatido na reunião de comissões que ocorre nesta quarta-feira, 1º de abril, na Câmara de Vereadores.



Fonte: http://www.defatoonline.com.br/noticias/ultimas/01-04-2015/autismo-e-complexo-e-muito-mais-comum-do-que-se-imagina

DIA MUNDIAL DA CONSCIENTIZAÇÃO DO AUTISMO




Hoje comemoramos o Dia Mundial da Conscientização do Autismo. O mundo todo e o Brasil, se vestem de azul - cor definida para representar este transtorno, com o objetivo de chamar a atenção da população e governantes, por políticas públicas voltada para o Transtorno do Espectro Autista. Desejamos profissionais capacitados, tanto da área da saúde quanto educacional, precisamos de verbas para pesquisas, precisamos de pessoas mais informadas à respeito desse transtorno. Por mais respeito e menos preconceito. Melhor qualidade de vida! No dia 31 de março, a câmara Municipal de Itabira aprovou por unanimidade, o projeto do vereador Sueliton, que institui esse como o dia da conscientização do autismo na cidade. Esperamos que ano que vem, este evento possa se multiplicar com ações de informações, capacitações, projetos em prol dos autistas.

A APAE DE Itabira conta com 7 salas estruturadas pelo programa psicoeducacional TEACCH -  TEACCH ou Tratamento e Educação para Autistas e Crianças com déficits relacionados à Comunicação, é um programa que envolve as esferas de atendimento educacional e clínico, em uma prática com abordagem psicoeducativa, tornando-o por definição, um programa transdisciplinar.

Este ano, inauguramos 2 salas de educação infantil. Mais uma conquista do movimento apaeano!


sábado, 21 de março de 2015

Um simples exame de saliva para diagnosticar o autismo

É o sonho de consumo de todos os médicos e da população em geral pois não existe nenhum exame laboratorial capaz de confirmar uma hipótese diagnóstica de autismo.
O diagnóstico de autismo continua sendo clínico, baseado no histórico e na observação do paciente e dependendo dos poucos especialistas disponíveis no Brasil para realizá-lo. O processo pode levar anos (filas de espera) beneficiando poucos e garantindo que milhares de centenas de autistas jamais receberão seu diagnóstico ou alguma forma de tratamento.
Eis que surge um grupo de pesquisadores da Clarkson e da State University of New York, liderados pelos Drs. Armand Wetie e Alis Woods propondo um método inédito, rápido e eficaz para realizar o diagnóstico de autismo: um simples exame de saliva.
Examinando a saliva de 6 jovens autistas na faixa de 6 a 16 anos e comparando a um grupo controle constituído por jovens neurotipicos (normais) os pesquisadores dectectaram na saliva dos jovens autistas um aumento significativo de nove proteínas e a diminuição ou ausência de outras três. As proteínas identificadas tinham uma função diretamente relacionadas ao sistema imunológico e a distúrbios digestivos.
Para a realização deste ensaio científico os pesquisadores lançaram mão de uma tecnologia sofisticada: a espectrometria de massa apoiada por conhecimentos fornecidos por um novo ramo da ciência: a proteômica que tem por objetivo estudar a estrutura e função de milhares de proteínas produzidas em nosso organismo obedecendo instruções fornecidas pelos nossos genes.
A notícia é alvissareira, se confirmada por outros grupos de pesquisadores, pois, em tese, poderá oferecer um diagnóstico rápido do autismo permitindo uma intervenção terapêutica precoce, garantindo um bom prognóstico para os pacientes.
No Brasil receio que recursos diagnósticos, como o proposto por estes cientistas, tragam mais angústia do que alívio ou esperança. Imaginem as famílias dos 2.000.000 de autistas que vivem entre nós cientes do transtorno que acomete seus filhos, netos, sobrinhos ou outros agregados sem ter a disposição nenhum recurso público a recorrer. É desesperador.

Referência: “A Pilot Proteomic Analysis of Salivary Biomarkers in Autism Spectrum Disorder'' – Journal of Autism Research.

terça-feira, 10 de março de 2015

Autismo: o que mostra um grande estudo de gêmeos


O autismo é uma doença neurológica complexa que se caracteriza pelo comprometimento na linguagem – atraso do início da fala, comunicação, interação social e estereotipia ou movimentos motores repetitivos, como agitar as mãos – e que tem sido objeto de muitas pesquisas. No início acreditava-se que tinha causas ambientais. Culpavam a mãe por não saber estimular suficientemente ou rejeitar os filhos (classificadas em inglês como “refrigerator mothers”). Um estudo publicado em 1988 na Inglaterra associou a aplicação de vacinas com o desenvolvimento do autismo. Recentemente foi demonstrado que a pesquisa era uma fraude, mas que teve um impacto negativo gigantesco porque muitos pais deixaram de vacinar seus filhos com medo que pudessem desenvolver autismo.

Hoje sabe-se que há um componente genético importante e acredita-se que há vários genes que interagindo com o ambiente podem levar ao desenvolvimento do autismo. Mas a grande questão é saber quais são esses genes e qual é a importância do ambiente no desenvolvimento do autismo? Para tentar tirar isso a limpo um grupo de pesquisadores americanos acaba de publicar um trabalho na revista Archives of General Psychiatry comparando a incidência de autismo em gêmeos idênticos e gêmeos fraternos. Para falar mais sobre isso entrevistei a Dra. Maria Rita Passos-Bueno, que desenvolve uma pesquisa importante no Centro do genoma Humano em genética de autismo.

Segundo a pesquisa realizada, que acaba de ser publicada, os autores concluem que embora a parte genética tenha um papel importante, o ambiente teria mais peso no desenvolvimento da doença. Você pode explicar como foi feito esse estudo?

A comparação da coincidência (ou concordância) do autismo nos pares de gêmeos idênticos (ou monozigóticos) em relação a coincidência do autismo nos pares de gêmeos fraternos (também chamados de dizigóticos) pode nos dar uma pista sobre a relevância dos fatores genéticos e ambientais na expressão da doença. Este estudo publicado na revista Archives of General Psychiatry fez exatamente isto. Os autores mostraram que o componente genético explica aproximadamente 40% da doença enquanto que 60% da expressão da doença depende de fatores ambientais.

Este trabalho difere dos anteriores pelo critério rigoroso quanto a classificação clínica do autismo e o número maior de pacientes analisados (192 pares de gêmeos) de forma que os dados podem ser mais representativos. De qualquer forma, o principal recado deste artigo, é que não só fatores genéticos, mas também fatores ambientais contribuem para a expressão do autismo.

Os pesquisadores que buscam a etiologia do autismo precisam ter isso sempre em mente. É importante ressaltarmos aqui que quando falamos de fatores ambientais, que ainda são pouco conhecidos, não estamos voltando a culpar a mãe. Poderia ser, por exemplo, uma deficiência de oxigenação na hora do parto ou algum outro fator durante a gestação. Os fatores ambientais são fisiológicos e não emocionais.

A pesquisa que você está realizando no CEGH aponta para um mesmo resultado?

A pesquisa na área de genética de autismo que desenvolvemos no CEGH não deve ser comparada diretamente com este estudo epidemiológico, pois estamos estudando pacientes que já têm alguma alteração cromossômica, mesma que pequena, para entender melhor o autismo principalmente na sua parte genética.

Você acredita que a partir desses estudos será possível encontrar um tratamento para o autismo?

Acreditamos, sim, que entender melhor a causa do autismo abre perspectivas de tratamento, pois permitirá identificar drogas que possam amenizar o efeito da alteração genética responsável pelo autismo naquele determinado caso. Um dos fatores importantes para o sucesso destas intervenções será certamente o tratamento precoce e, consequentemente, estes pacientes precisam ser diagnosticados o quanto antes. O diagnóstico precoce é ainda um problema importante no nosso meio, apesar de que há alguns grupos, como o liderado pelo Dr. Estevão Vadaz, do Hospital das Clínicas, em São Paulo.
Um outro aspecto importante, é que parece haver um grande número de possíveis causas para o autismo, de forma que entendendo um caso, não sabemos quanto poderemos ajudar os outros. Ao desvendar os aspectos genéticos do autismo, no entanto, poderemos contribuir não só na busca de tratamento como também na realização de diagnóstico mais precoce com maior precisão.

Fonte: http://veja.abril.com.br/blog/genetica/sem-categoria/autismo-o-que-mostra-um-grande-estudo-de-gemeos/

Autismo é quase inteiramente ‘causado pela genética’, aponta estudo

Pesquisa realizada com 516 gêmeos apontou que constituição biológica é responsável por entre 74 e 98% dos casos
POR O GLOBO COM SITES INTERNACIONAIS
05/03/2015 8:44 / ATUALIZADO 05/03/2015 9:37

Pesquisadores avaliaram gêmeos criados na mesma casa, pelos mesmos pais - Reprodução/Freeimages
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RIO - Uma nova pesquisa realizada pelo Conselho de Pesquisa Médica do Reino Unido sugeriu que o autismo é quase inteiramente de origem genética, com a constituição biológica sendo responsável por entre 74% e 98% dos casos. O estudo se concentrou em um total de 516 gêmeos e descobriu que as taxas de Transtorno do Espectro Autista (TEA) foram maiores em gêmeos idênticos que compartilham o mesmo DNA, apontando, portanto, que a condição pode ser mais hereditária do que se pensava.

Publicado na revista “JAMA Psychiatry”, o levantamento também mostrou que genes foram responsáveis ​​por traços autistas e comportamentos da população em geral.
“Nossa principal descoberta foi a de que a hereditariedade do TEA foi alta. Esses resultados demonstram ainda a importância dos efeitos genéticos sobre a doença, apesar do aumento dramático na prevalência da doença nos últimos 20 anos”, observa a autora principal do estudo, Beata Tick, Instituto de Psiquiatria do Conselho .
A partir da análise de dados da base populacional do Estudo de Desenvolvimento de Gêmeos (Teds, na sigla em inglês), que abrange gêmeos criados na mesma casa, pelos mesmos pais, os pesquisadores avaliaram, no entanto, que não era possível excluir completamente a influência de fatores ambientais.
Já o professor e coautor do estudo, Patrick Bolton explicou que a comparação de gêmeos idênticos e não-idênticos é uma forma bem estabelecida de esclarecer o grau de influências genéticas e ambientais no autismo, principalmente com o aspecto inovador desse levantamento que foi a inclusão de gêmeos independentemente de terem tido um diagnóstico clínico.
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“Isso nos permitiu obter uma imagem mais precisa de como as experiências ambientais de uma criança e sua composição genética são influentes no TEA, bem como em expressões mais sutis de habilidades e comportamentos autistas”, explicou.
A pesquisadora Francesca Happe afirmou, ainda, que as taxas mais elevadas de autismo nos últimos anos poderiam ser atribuídas a diagnósticos mais corretos. A desordem, um espectro de condições que varia muito de pessoa para pessoa, pode ter sido previamente classificada como uma dificuldade de aprendizagem, e não reconhecida como autismo, informou à “BBC”.
“Nossos resultados sugerem que fatores ambientais são menores, o que é importante, uma vez que alguns pais estão preocupados se fatores como alta poluição possa estar causando o autismo”, disse ela. “Algumas pessoas acham que pode haver um componente ambiental grande, porque o autismo tem se tornado mais comum nos últimos anos, mas o que aconteceu muito rápido para a genética para ser uma causa provável.”



sábado, 10 de janeiro de 2015

Diagnóstico do autismo

Ao longo dos últimos anos nos EUA, as estatísticas têm apontado para um número crescente de pessoas diagnosticadas com autismo. Mas, apesar do crescente número de diagnósticos, tanto nos EUA como em muitos outros países, os motivos que levam a esse aumento na quantidade de crianças diagnosticadas ainda não estão claros e vêm sendo debatidos pela comunidade científica internacional.

Há cientistas que alegam que fatores ambientais têm ocasionado o surgimento de mutações genéticas raras, elevando o surgimento dos casos de autismo no mundo. Outros cientistas apontam que o aumento no número de crianças com autismo sendo diagnosticadas teria relação com aumento da idade dos seus pais. E existem ainda aqueles que acreditam que a emergência de um crescente número de casos do autismo deve-se, simplesmente, ao fato de que a comunidade médica tem tido mais facilidade em diagnosticar o transtorno. Em consonância com esta terceira via de pensamento, a Revista Time publica estudo sobre o diagnóstico do autismo e divulga uma pesquisa recente apresentada no periódico científico JAMA Pediatrics, que reforça a tese de que o aumento do número de casos de autismo deve-se às mudanças no processo de diagnóstico.

No estudo mencionado na reportagem da Time, 677.915 crianças dinamarquesas nascidas entre 1980 e 1991 foram acompanhadas e monitoradas por pesquisadores até obterem o diagnóstico de autismo – as que não obtiveram o diagnóstico foram acompanhadas até o final do estudo, que encerrou-se em dezembro de 2011. Os pesquisadores atentaram-se às mudanças que ocorreram antes e depois de 1994, já que, neste ano, a Dinamarca alterou os critérios para diagnósticos psiquiátricos e o autismo passou a ser percebido como um espectro de transtornos. Os resultados obtidos pelos pesquisadores indicaram que um número maior de crianças foi diagnosticada com autismo a partir de 1995 e, então, a equipe estimou que 60% do aumento no número de casos de autismo diagnosticados naquele país pode ser atribuído às mudanças nos critérios do diagnóstico que foram lá implementadas.

De acordo com a Revista Time, embora as conclusões do estudo refiram-se à Dinamarca, nos EUA, assim como em outros países, mudanças similares nos critérios de diagnóstico também aconteceram nos últimos anos. A reportagem menciona que em maio de 2013 a Associação Americana de Psiquiatria divulgou novos critérios para o diagnóstico do autismo através de uma reformulação no Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5). Segundo as diretrizes anteriores estabelecidas no Manual, as crianças analisadas deveriam atender seis dos doze critérios listados para poderem ser diagnosticadas com o autismo (ou com a Síndrome de Asperger). Atualmente, o mesmo Manual estabelece que os distúrbios devem ser enquadrados em uma categoria única (que passou a ser denominada “transtornos do espectro do autismo”), sendo que os critérios necessários ao diagnóstico tornaram-se mais específicos. O Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC), nos EUA, estima que cerca de uma em 68 crianças norte-americanas está no espectro do autismo, o que é 30% maior do que as estimativas feitas pelo órgão em 2012. Stefan Hansen, da Universidade de Aarhus na Dinamarca (e autor do estudo recentemente publicado) afirma que este aumento pode relacionar-se com uma maior consciência pública acerca do autismo. Para Stefan, o fato de as pessoas se tornarem mais conscientes sobre o termo autismo ao longo do tempo faz com que os pais acabem levando os seus filhos para serem examinados com mais frequência.

A comunidade científica concorda que mais pesquisas são necessárias para entender como outros fatores podem estar contribuindo para o aumento dos casos de autismo diagnosticados em todo o mundo. O CDC fez um anúncio recente de que, ao longo dos próximos quatro anos, serão investidos mais de US $ 20 milhões para acompanhar a prevalência do transtorno do espectro do autismo entre as crianças nos EUA. A reportagem menciona que, com um acompanhamento melhor da prevalência do autismo, a esperança é que a comunidade científica e as famílias afetadas possam compreender cada vez mais o surgimento do transtorno.

Fonte: Inspirados pelo Autismo


quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

Autismo e perspectivas

No ano de 2014, a trajetória da luta pelos direitos da pessoa com o transtorno teve vitórias e desafios

Rio - Nos últimos anos, os debates acerca do autismo ganharam visibilidade. A exposição do tema na mídia e nas redes sociais disseminou informações que têm aclarado um pouco mais esse campo de estudos, ainda desconhecido para a maioria das pessoas. O autismo é um transtorno tão complexo e com sintomas tão diferentes, que há quem diga que não existem dois autistas iguais. O autista tem dificuldades na interação social e um apego exagerado a rotinas.

No ano de 2014, a trajetória da luta pelos direitos da pessoa com o transtorno teve vitórias e desafios. Algumas das conquistas foram a capacitação de profissionais e professores da rede pública de ensino, pesquisas científicas buscando descortinar a síndrome e a inauguração da primeira clínica-escola pública para autistas no Brasil, em Itaboraí.

Porém, ainda há grandes desafios pela frente. Muitos autistas foram impedidos de frequentar escolas simplesmente por serem autistas. Crianças viram o seu direito a uma educação multidisciplinar cerceado, porque há poucas escolas estruturadas para atendê-las. Como resultado, mães e pais se sentiram desamparados na luta pelo tratamento de seus filhos; esquecidos foram por quem deveria ampará-los.
Também falta espaço no mercado de trabalho, porque não existem políticas para o campo profissional que os capacitem e os incluam.

Porém, nesse estado das coisas, surgiram aqueles que não perderam a esperança, mas nutriram seus sonhos na mesma perspectiva de muitos professores, desejosos por um espaço educacional afetivo e social, que não discrimine, mas acolha e inclua a partir de um modelo de ensino que aponte mais para as necessidades de quem aprende e menos para os conceitos de quem ensina. São família e escola. Esses são os que poderão superar os desafios. 


Fonte: Eugênio Cunha no O Dia

segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

Congresso Nacional on-line de Autismo


O Primeiro Congresso Nacional Online de Autismo, é um Evento que acontecerá de 23 de fevereiro a 01 de março. Serão palestras com Médicos, Pesquisadores, Fonoaudiólogos, Psicólogos, Pedagogos, Terapeuta Ocupacional, Pais e Familiares, Organizações e Associações.

O Congresso será Totalmente Online e GRATUITO durante toda a semana de exibição, onde serão disponibilizadas várias palestras em horários pré determinados, abordando vários assuntos de grande relevância para todos os Interessados com Grandes Especialistas e Pesquisadores.

Para ter acesso a Área do Congresso você deve fazer a sua inscrição colocando seu e-mail no campo INSCRIÇÃO, assim que você se inscrever na página do Congresso, receberá um link de confirmação no seu e-mail colocado na Inscrição, fazemos isto para ter certeza da autenticidade do e-mail, assim que fizer a confirmação no link mandado no seu e-mail seu acesso será ativado no Congresso. É muito importante este e-mail ser visto regularmente, pois mandaremos várias informações acerca do evento.

Nos dias do Congresso será mandado um link diário para acesso a Área do Evento no seu e-mail. Nossa sala virtual suporta no máximo 4.000 pessoas em cada palestra, por este motivo é importante organizar-se e acessar o link na hora marcada. Além de mandarmos o link no seu e-mail disponibilizaremos o Link na Comunidade no Facebook bem como no nosso site.

A programação de palestras estará disponível brevemente.


sexta-feira, 14 de novembro de 2014

PROJETO FADA DO DENTE

Trabalhamos com células-tronco de polpa de dente de crianças autistas, através dessas células estudamos os mecanismos envolvidos nesta doença.

As doações acontecem da seguinte maneira: quando a criança esta com um dente mole, os pais entram em contato com o nosso grupo e nós os orientamos sobre o armazenamento. Quando o dente cai, os pais devem enviar para nós em até 48 horas para realizarmos o processo de isolamento das células-tronco.
Dentes que já caíram, infelizmente não servem pois as células-tronco morrem logo após a queda do dente. Para realizar a doação do dentinho do seu filho(a) o dente deve ter caído na hora, estar em ótimas condições (NÃO PODE ter carie), deve estar branquinho, limpo e com bastante polpa (que é aquela carninha dentro do furinho do dente). Se o dente não estiver em ótimas condições infelizmente não servirá para a pesquisa, pois as células que extraímos são muito sensíveis e morrem com facilidade.
Para iniciar, enviamos uma ficha de anamnese (ficha clínica) do (a) seu (sua) filho (a), para selecionarmos conforme o tipo de autismo, pois estamos recebendo muitos dentinhos. Esta ficha está anexa.
Infelizmente, no momento nós não estamos conseguindo enviar os kits da fada, mas o dente pode ser colocado em um potinho plástico (como aquele de exame de urina que vende na farmácia) contendo água mineral ou filtrada. Feche-o bem e coloque dentro de um isopor pequeno com gelo (o gelo pode ser reciclável, caso tenha, ou pode ser gelo normal, mas coloque dentre de vários sacos plásticos....).
Em seguida, envie para nós por Sedex mas dê preferencia para o Sedex 10 porque chega mais rápido e assim aumentam as chances de sucesso na obtenção das células do seu filhote.
Segue os dados para envio:
A/C Projeto a fada do dente
Av Prof Dr Orlando Marques Paiva, 87
Cidade Universitária
São Paulo/SP
Laboratório de células tronco - FMVZ/USP
departamento de cirurgia
CEP: 05508-270
Atenção: Os dentes doados são utilizados somente para a pesquisa, nós não somos um banco de células-tronco e não oferecemos nenhum tipo de tratamento com células-tronco nos pacientes, nós utilizamos essas células para realizar estudos no laboratório.
Pedimos para que o pais sempre entrem em contato conosco no caso de dúvidas. E assim que tivermos algum resultado, divulgaremos em jornais e revistas para que todos tenham acesso aos resultados da pesquisa, mas sempre sem identificar nenhum dos doadores ou seus familiares. Apenas os resultados científicos são divulgados.
Caso tenha alguma dúvida sobre o projeto, você também pode acessar o site: www.projetoafadadodente.com.br

sexta-feira, 10 de outubro de 2014

O brilho do carisma

A liderança surge como um processo coletivo e muitas vezes funciona como uma espécie de "truque", que pode ser aprendido e desempenhado em condições específicas


O presidente se ergueu pela longa rampa até a plataforma de seu vagão de trem... Amigo ou inimigo, aqueles que o viram nesse momento não deixaram de se comover diante da visão daquele homem, deficiente físico, subindo com tanta dificuldade – na verdade, impulsionando-se com os braços e músculos do ombro enquanto as mãos fortes agarravam o corrimão na lateral da rampa.” As viagens de trem de Franklin D. Roosevelt durante as campanhas presidenciais americanas de 1932 e 1936, aqui descritas por Samuel Rosenman, seu redator de discursos, tornaram-se lendárias. Segundo Breckinridge Long, embaixador de Roosevelt na Itália, “a multidão ultrapassava os limites do entusiasmo de forma selvagem”. Esse arrebatamento transbordou nas urnas, e em 1936 Roosevelt venceu as eleições por 11 milhões de votos, abrangendo todas as jurisdições estaduais, de Vermont ao Maine.

Vários estudos acadêmicos, mais notadamente uma análise realizada pela pesquisadora Dean Keith Simonton, da Universidade da Califórnia em Davis, e publicada em 1988 no Journal of Personality and Social Psychology, identificam Roosevelt como o mais carismático de todos os presidentes americanos.

No início, os assessores do presidente eram contra as viagens. Em 1921, Roosevelt foi diagnosticado com pólio, chamada popularmente de “paralisia infantil”. Como a especialista em campanhas políticas Kathleen Hall Jamieson, da Universidade da Pensilvânia, documentou, histórias de líderes eficazes e carismáticos os apresentam como viris, fortes e repletos de energia. O estado “infantilizado” de Roosevelt, porém, o privava dessas características. 
Qual era, então, a fonte de seu carisma? Inúmeros acadêmicos sugerem que estava no fato de ele transformar sua desvantagem em vantagem, mudando o foco negativo de sua deficiência para os atributos positivos da conquista pessoal: persistência, coragem e resistência. Ao fazê-lo, se conectava com milhões de americanos comuns durante a Grande Depressão. Após sua morte, um repórter perguntou a um homem que esperava para ver o trem do funeral na estação Union de Washington: “Por que você está aqui? Você conhecia Franklin Roosevelt?”. O entrevistado respondeu: “Não, mas ele me conhecia”.

Alguns raros políticos conseguem se parecer tanto com um “de nós” quanto “a favor de nós” – uma proeza que geralmente reside no cerne do carisma. Mas ao contrário do que muitos acreditam, não se trata de um dom – o carisma é resultado de cuidadosa elaboração. Nesse processo, o grupo que está sendo liderado está em igualdade de condições com o líder. O político aspirante, executivo ou ativista deve integrar as esperanças e os valores do grupo em uma história coerente e se fundir de forma emblemática nessa narrativa. No caso de Roosevelt, o ponto forte era a perseverança.
Um delicado equilíbrio de forças sociais imbui uma pessoa com a capacidade de inspirar outras. Ao observar toda a encenação que envolve as eleições, por exemplo, fique atento aos esforços dos candidatos para aproximar-se dos eleitores, procurando mostrar o quanto são parecidos e desejam as mesmas coisas. 

A política, porém, é só um campo a ser considerado. Descobertas recentes sugerem que todos podem aprender a cultivar o próprio carisma. Seja como empresário,como professor, seja um estudante que aspira à presidência do diretório, é possível brilhar um pouco mais se entendermos como os grupos pensam.

TOQUE DE MAGIA

De origem grega, a palavra charisma tem vários significados: o poder de fazer milagres, a habilidade de profetizar e de influenciar outros. A última definição é mais relevante aqui porque atualmente liderança costuma ser definida como processo social, em oposição à característica pessoal que permite a alguém motivar outras para ajudar a atingir metas de um grupo.

Liderança e carisma, entretanto, nem sempre foram vistos como fenômenos sociais. Desde os primeiros escritos sobre o assunto, por volta de 2.400 anos atrás, as qualidades foram consideradas inatas e privilégio de poucos. Sócrates chegou a declarar que “apenas um minúsculo número de pessoas” tem a amplitude de visão e os dotes físicos e mentais necessários para comandar. Mais recentemente essa posição foi atribuída ao sociólogo alemão Max Weber, a quem costumam atribuir a popularização do termo “carisma”. No início do século 20, ele o descreveu como “determinada qualidade de uma personalidade individual pela qual um líder se destaca dos homens comuns e é tratado como dotado de qualidades sobre-humanas ou pelo menos excepcionais, considerado como se tivesse poderes mágicos”.

Entretanto, Weber não encarava o carisma como mera qualidade de raros indivíduos agraciados pela sorte. As pessoas tendem a se concentrar nas palavras “sobre-humanas” e “mágicos” na citação, mas as palavras “tratado” e “considerado” são igualmente importantes. Weber prossegue: “O que é de fato importante é como a pessoa é vista por aqueles sujeitos à sua autoridade carismática, por seus ‘seguidores’ ou ‘discípulos’. Em outras palavras, os seguidores distinguem o líder dos outros e lhe concedem o carisma”.

Alguns experimentos apoiam esta visão, em especial o trabalho do falecido James Meindl, da Universidade Suny, em Buffallo, e seus colegas. Junto com Stanford Ehrlich, agora na Universidade da Califórnia, San Diego, e Janet Dukerich, da Universidade do Texas em Austin, Meindl revisou 30 mil reportagens de jornais que mencionavam a liderança de executivos. Em 1985, relataram a forte correlação entre referências à liderança carismática e evidências de melhora no desempenho de empresas.  A descoberta sugeriu duas possibilidades: as decisões e ações do líder levaram à melhora da organização, ou quando as pessoas viam a empresa com desempenho melhor, pressupunham que o resultado era devido à liderança carismática.

Para eliminar a questão controversa da causalidade, Meindl projetou um experimento interessante. Trabalhando com o doutor em administração e gestão Rajnandini Pillai, da Universidade Estadual da Califórnia, San Marcos, ele apresentou a universitários do curso de administração informações bibliográficas sobre o presidente de uma rede de restaurantes junto com dados sobre o desempenho da empresa durante os dez anos anteriores. Os participantes receberam informações diversas: alguns foram avisados que a empresa tinha passado de lucrativa a deficitária (“uma crise que levou ao declínio”); a outros voluntários foi dito que o negócio permanecera deficitário; um terceiro grupo ficou sabendo que o negócio se mantinha lucrativo e a outros ainda que a organização fora de deficitária a lucrativa (passando por uma “reversão de crise”). Os jovens classificaram o carisma do líder em uma série de escalas (veja quadro abaixo).
Embora a personalidade do executivo fosse descrita da mesma forma nos vários casos, ele foi visto como muito mais carismático quando a fortuna da empresa melhorou. Assim, Meindl concluiu que carisma não é uma característica de líder, mas uma atribuição feita por seguidores que são seduzidos pelo que ele denominou “o romance da liderança”. Em resumo, o carisma pode mais ser um truque que uma característica.

TORNAR-SE ESPECIAL

No entanto, há mais coisas envolvidas nessa situação que o resultado de sucesso. Evidências de outra pesquisa sugerem que provavelmente não atribuímos carisma ao gerente de uma equipe competidora que supere a nossa ou ao líder de um partido rival, que nos derrote nas pesquisas. Ou seja: um líder faz sucesso para nós. Esta análise é embasada na obra do falecido John C. Turner, psicólogo social, pesquisador da Universidade Nacional da Austrália. Em seu livro Social influence, de 1991, ele afirma que a liderança é um processo coletivo que envolve a identidade social compartilhada e permite que cada indivíduo exerça influência sobre os demais. Essa identidade comum se refere à compreensão do indivíduo sobre si mesmo como pertencente ao grupo. É o sentimento que emerge ao nos referirmos, por exemplo, a “nós, brasileiros”, “nós, mulheres”, “nós, psicólogos”, “nós, torcedores de determinado time” etc. 

É importante observar que quando nos definimos em termos coletivos tendemos a considerar o grupo do qual fazemos parte único, diferente – e melhor que os outros. Por isso, para confiar em um líder, precisamos, primeiramente, acreditar que ele é “um de nós” – e, de alguma forma, “especial”. O mesmo princípio marca a percepção do carisma. Em um experimento recente que conduzimos junto com as pesquisadoras Kim Peters e Niklas Steffens, da Universidade de Exeter, Inglaterra – e apresentamos na Reunião Geral da Associação Europeia de Sociologia Social de 2011 –, descobrimos que estudantes percebiam o discurso do presidente Barack Obama na Conferência Mudança Climática de Copenhague de 2009 como carismático quando o viam como um membro de seu grupo que avançava em suas metas. Mais especificamente, os que se definiam como “ambientalistas” julgaram o discurso de Obama mais carismático quando lhes disseram que os Estados Unidos conseguiriam atingir as metas para a redução de emissões de dióxido de carbono do que quando os fizeram acreditar que o país não conseguiria atingir esse objetivo. Essas informações, porém, não geraram impacto nos universitários que não tinham preocupação marcante com o meio ambiente. Esses últimos consideraram o discurso muito menos carismático. Ou seja: o carisma de Obama era condicionado ao quanto o público sentia que suas metas eram apoiadas.

Outros estudos confirmam esse resultado. Num experimento clássico desenvolvido pelo pesquisador Michael J. Platow, da Universidade Nacional da Austrália, foi pedido a universitários que classificassem o carisma de Chris, um líder estudantil fictício. Os voluntários deveriam avaliar o quanto o personagem inspirava confiança, era capaz de motivar os colegas, tinha visão ampla das mais variadas situações, ajudava a aumentar o otimismo do grupo etc. Os participantes foram informados de que Chris tinha boas qualidades – inteligência, responsabilidade e simpatia, características com as quais a maioria dos alunos se identificava. No entanto, ele podia tanto ser bem-sucedido quanto falhar no propósito de conseguir a posição almejada no diretório estudantil. Os resultados dessa experiência confirmam que o sucesso é fundamental para o incremento do carisma – mas não basta. Estudos também acentuam a importância do que os cientistas chamam de prototipicalidade. Quando o diretório prospera mas Chris não parece em sintonia com os estudantes, os jovens o classificam como menos carismático, em comparação a ocasiões em que o grêmio perdeu representatividade mas o personagem foi considerado “mais próximo” dos colegas. 

Mesmo desacreditados, líderes podem ter uma segunda chance. Outro experimento realizado por Platow e seus colegas mostrou que é possível recuperar o carisma usando linguagem que estabeleça noção de identidade compartilhada – referindo-se a “nós” em vez de “eu”. O carisma de Chris, por exemplo, aumentava quando usava linguagem inclusiva, enfatizando identidade social compartilhada (veja quadro na página ao lado).

A EFICÁCIA DOS TRÊS R`s

A questão mais ampla aqui é que a prototipicabilidade – e, portanto, o carisma – não é algo que possuímos ou que nos falta. Mas pode ser aprendido e cultivado. Durante muitos anos, examinamos como líderes eficientes criam narrativas de si próprios, de suas propostas e de grupos aos quais agradam. No livro de 2001 Self and nation, de um de nós (Reicher) e Nick Hopkins, da Universidade de Dundee, na Escócia, usamos uma frase para resumir essa noção: líderes carismáticos precisam ser excelentes “empreendedores de identidade”. Líderes carismáticos costumam falar sobre o que “nós acreditamos” e não dizer às pessoas no que devem crer. Porém, apenas declarar secamente “somos assim” pode motivar a resposta:  “Ah, não somos não!”. As narrativas bem-sucedidas de identidade manifestam-se como revelação e não decreto.

Uma pessoa que ambiciona liderar – seja em contexto político, empresarial, numa equipe esportiva, em outro grupo qualquer – pode recorrer aos “três Rs” da liderança eficaz: reflexão, representação e realização. A reflexão refere-se à aproximação da cultura e da história de um grupo – livros que todos leem na escola ou textos bíblicos, por exemplo, sustentam valores universais. Muitos líderes famosos pelo carisma tinham grande interesse em poesia e literatura – o que não é mera coincidência. Da mesma forma, diversos grandes líderes também passaram muito tempo ouvindo antes de começar a falar para outras pessoas. Aqueles que acreditam que não têm nada a aprender com os outros raramente são escolhidos como bons líderes. Já os bem-sucedidos que sucumbem à crença de que suas conquistas são apenas pessoais (e não coletivas), parecem, com o tempo perder o “encanto”.

A representação está associada à necessidade de ser visto tanto como membro quanto como figura de destaque em determinado meio. Um líder não só tece a narrativa em torno de sua própria identidade, mas também o faz em relação ao grupo ao qual se dirige, procurando tornar as narrativas coerentes e consistentes. Aparência, tom de voz e seleção de palavras têm papel fundamental nesse processo. 
Finalmente, a realização vincula-se à capacidade de transformar situações. O sucesso de um líder é medido por sua busca de prioridades para o grupo – crescimento econômico, conforto, igualdade de direitos ou prestígio, por exemplo. Um líder que brilhe com a luz do carisma também ajudará a moldar esses critérios e mobilizará as pessoas a seu favor. Em suma, líderes carismáticos são os que se saem bem ao fazer com que todos se sintam valorizados. 

Nessa empreitada, além de manter o empenho, é fundamental estar atento a oportunidades e habituar-se a lidar com imprevistos. Quando perguntaram ao primeiro-ministro britânico Harold Macmillan sobre seu maior medo, ele respondeu: “Acontecimentos, meu caro, acontecimentos”.

Fonte: S. Alexander Haslam e Stephen D. Reicher
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